sexta-feira, 26 de abril de 2013

TÉCNICA DE SOBREVIVÊNCIA EM APS - AS METAS


Hoje falaremos sobre o tema polêmico e tristemente dinâmico que é o conjunto de  metas a que estamos submetidos no interesse de conservar o salário intacto e o turno estendido em vigor e, de quebra, manter a inssanidade em níveis administráveis.
Também conhecidas sugestivamente como “mertas”, uma composição do nome original com algo que não cheira nada  bem, compreendem uma reunião de objetivos mais ou menos inalcançáveis que tendem a se tornar  cada vez mais rígidas, até a total inacessibilidade.
A finalidade declarada de todo esse procedimento é a melhoria do atendimento à população, pois as agências passaram a ficar abertas durante mais tempo, embora tendo como contraponto a duração da jornada de trabalho dos servidores que foi reduzida em duas horas. Um pouco ortodoxo cálculo matemático cujo resultado prático mais visível é o fato de que o segurado passou a ter que acordar uma hora mais cedo para ser o primeiro da fila que se forma à espera da abertura da APS, prazer este reservado a muitos aposentados que fazem de sua ida ao INSS um dos preferidos exercícios matinais.
Sabe-se, entretanto, que tais metas têm como objetivo primordial a impossibilidade de serem atingidas e costumam ser elaboradas em sádicos grupos de trabalho especialmente formados para este fim. Primeiramente criam parâmetros aleatoriamente e se exige que deles se aproxime a produção das agências. Alcançado, com grande esforço,  o efeito desejado, já se mudam os padrões e aumentam as exigências, de modo que o servidor sinta-se sempre  esmagado por um torniquete virtual, a fim de produzir cada vez mais, a despeito de todas as dificuldades.
 O que, a princípio, parece ilógico é fruto, no entanto, de um aprofundado e requintado estudo da alma humana e que pretende avaliar o grau de submissão a que pode chegar um inssano, até que ponto ele se resigna a fazer qualquer coisa para manter o salário que lhe é devido e a carga horária reduzida que antes de lhe ser tomada, lhe era de direito e que, ao ser parcialmente devolvida, vive sob constante ameaça.
O principal braço operacional desta permanente tortura é a Dataprev com seus inconstantes, inoperantes e cada vez mais numerosos sistemas que nos trazem uma nostalgia dos tempos anteriores à informatização, já que não era possível manipular remotamente uma caneta.
Um dos divertimentos prediletos da maquiavélica instituição acima citada consiste na alternância de funcionamento de sistemas; quando uns funcionam, outros estão instáveis, ou, em linguagem clara e direta, inoperantes. Quando alguns voltam a funcionar, os outros caem. Essa é uma excelente forma de inviabilizar ou, pelo menos, retardar bastante, o atendimento dos agendamentos de benefícios e levar o servidor ao desespero por ver o cumprimento das metas perigando, pois, evidentemente, atrasos e deficiências alheios à vontade e à competência do trabalhador não são levados em consideração. Outra estratégia muito divertida são aqueles variados erros no processamento da folha de pagamento que fazem triplicar a demanda espontânea normal da agência.
Só resta ao servidor, portanto, já que não tem como acompanhar a evolução alucinante das metas, tentar agilizar, como pode, o atendimento e  estabelecer procedimentos criativos de modo a diminuir a demanda. Aconselha-se o uso da hipnose condicionativa para convencer o segurado de que ele não precisa retornar à agência para pegar o ‘papel pra viagem’ nos próximos dez anos a menos que, de fato, vá ele viajar. Um bom resultado também se obtém com o uso de pó-de-mico concentrado que, polvilhado diariamente nas cadeiras, diminui muito o número de segurados na agência uma vez que muitas pessoas passam a ter necessidades mais prementes do que esperar pelo atendimento.
Aproveitamos para informar que não endossamos o uso da Solução Sono Eterno dos Laboratórios Conceição & Co., utilizável na água do bebedouro, devido a seus efeitos colaterais irreversíveis.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

TÉCNICAS DE SOBREVIVÊNCIA EM APS - A CONSPIRAÇÃO


Todos nós conhecemos os esforços envidados por americanos e japoneses  no combate à invasão alienígena que reiteradas vezes  assolou  e ainda assola o nosso já superpovoado planeta.  Discos voadores cortam os nossos céus mais amiúde que estrelas cadentes  e pousam com maior discrição e frequência que meteoros. Sempre em surdina, seres esquisitos e desengonçados arriscam passos protegidos por pistolas de laser espacial  e tentam capturar espécimes nativas para travar conhecimento psíquico e anatômico de modo a facilitar a invasão e conquista da Terra. Felizmente, pensávamos até agora, eles sempre foram descobertos, garantindo assim nossa liberdade e integridade física e mental.
Porém, há países, como o Brasil, que não possuem sistema de defesa contra extraterrestres  e que, dada a facilidade encontrada, desenvolveram um sofisticado plano de ação para o seu estabelecimento em plagas tupiniquins. Não passeiam pelas calçadas esses verdes ciclopes de antenas estereoscópicas  nem dão rasantes com suas naves espaciais nas grandes cidades. Não! Desenvolveram eles um sistema de captação de cobaias doadores de cérebro para que os seres alienígenas os possam  transformar , aos poucos, em um batalhão teleguiado para agir em função de seus  escusos objetivos. Esse sistema é representado por uma entidade sem fins lucrativos, conhecida pela sigla INSS (Intergalactic Nation of Serial Sugators, em macarrônico inglês) e que, por meio de concurso público, procura arregimentar grupos de pessoas esforçadas e estudiosas, interessadas em um atrativo salário, e que para isso ultrapassam qualquer obstáculo, não poupando esforços para chegar a seu fim, estudando horas a fio, desprezando passeios e distrações, sem saber que esta qualidade é extremamente apreciada pelo inimigo que pretende manipular suas vítimas.
Uma vez empossado, o jovem servidor começa a sofrer sérios ataques dos sugadores de cérebro, com o fim de não opor resistência às intenções dos extraplanetários.
A primeira forma de assédio é a obrigatória utilização de programas, também conhecidos como cavalos de tróia, que, se fazendo passar por sistemas de informática, têm como fim o amolecimento cerebral do infeliz servidor. O pobre coitado, de tanto informar inutilmente senhas, matrícula, CPF e outros dados mais, vai sendo mesmerizado lentamente,  invadido por fluidos emanantes do computador e que o vão anestesiando, deixando-o  suscetível a toda forma de manipulação. A pessoa, vendo que é inútil todo o esforço, resigna-se, e repete mecanicamente sua tarefa, já sem muita convicção ou esperança e, a todo instante, vê um sistema cair ou, por outra, não conectar, enquanto os segurados ameaçam uma revolta em resposta à demora no atendimento.
A seguir vêm as cobranças de cumprimentos de metas inatingíveis e variegadas ameaças. Nada mais está seguro. A qualquer momento podem mudar as regras do jogo, o salário e a carga horária, ambas variáveis, deixam o servidor completamente desnorteado e sem reação, respondendo positiva e mecanicamente a tudo o que lhe é proposto:
- TRA BA  LHAR SEIS HO RAS... TRA BA  LHAR SEIS HO RAS...
- TRA BA LHAR OITO HORAS... TRA BA LHAR OITO HORAS...
- TRA BA LHAR VIN TE HORAS... TRA BA LHAR VIN TE HORAS...
- SEM SA LÁ RIO... SEM SA LÁ RIO...
- SEM RE VOL TA... SEM RE VOL TA...
- DÃ... DÃ... DÃ...
Quando chega a esta terrível, inevitável e intransponível situação o cidadão-servidor terá se transformado num androide de articulações endurecidas pela LER e pelo senta-levanta contínuo para percorrer  o curto caminho entre sua mesa e a impressora, com os músculos da face enrijecidos pelo sorriso-padrão pouco espontâneo de atendimento ao público e, pior que tudo, pela total degeneração do raciocínio. Então terá se completado a mutação desejada pelo inimigo e deixará de ser um humano e terá se convertido num CNISoide SIBErnético, capaz de obedecer a todas ordens sem questionar e ser manipulado a bel prazer das forças ocultas. Portanto, enquanto ainda há tempo, deve-se ter muita cautela para
- MUI TA CAU TE LA... MUI TA CAUTELA...
- DÃ...DÃ...DÃ...