sexta-feira, 27 de julho de 2018

TÉCNICAS DE SOBREVIVÊNCIA EM APS - O TELETRABALHO


Ah!                

                  

               Ah! O tão esperado teletrabalho. Na tranqüilidade do recesso do lar, entre um gole bem gelado de cerveja e outro, vão sendo analisados os processos. É claro que existem pequenos percalços no caminho, mas que nem de longe tornam menos gratificante o labor residencial. O bebê que engatinha pela casa e puxa a tomada do computador. É só colocá-lo no berço e refazer a conexão do aparelho. E depois tirar o gato de cima do teclado. Cuidado para não derrubar a cerveja! Ih! Fique calmo. Não é nada que um pano seco não resolva. Com exceção do teclado. E daquela cadeira hiper-ergométrica, caríssima e recomendada pelos especialistas. Bom, essa primeira meia hora de trabalho não foi das mais produtivas, porém você tem o dia inteiro pela frente para cumprir sua meta. Pena que o sistema caiu. Você está atrasado. Não entre em pânico! Tudo vai dar certo. Talvez tenha que se abster de uma refeição decente e se contentar com um sanduíche ou se privar da soneca da tarde. Mas valerá a pena. Apenas torça para a conexão não cair depois que a luz voltar.




     Mas se você não foi contemplado com a dádiva do trabalho em casa, ensinaremos aqui como você pode exercitar o teletrabalho no balcão da APS, em pleno atendimento.

                           A primeira possibilidade reside em se afastar mentalmente daquele segurado que começa a falar desaforos e gritar com você. Imagine-se em um belo campo de papoulas no Afeganistão, todas vermelhinhas, oscilando suavemente à brisa matinal. Enquanto faz essa poética viagem imaginária, você deverá ficar balançando a cabeça em sinal afirmativo, feito aquele bonequinho de mola quando salta de sua caixinha assim que ela é aberta.   Se, em meio ao seu transe, perceber que o segurado está
muito agitado, sacudindo as mãos, como a solicitar uma maior
participação sua no até então fora um monólogo, você deverá incluir algumas afirmativas enfáticas para acalmá-lo tais como: Sim, aham, exatamente, isso mesmo, o/a senhor/a tem toda a razão,  enquanto imagina um par de pétalas se soltando do caule, unidas em forma de borboleta, flutuando rumo ao céu azul. E torça para que tenha um retorno suave à dura realidade e veja vazia a cadeira diante de si e que não seja despertado por uma guardachuvada no coco.



                              Outra forma vivenciar a experiência do teletrabalho durante o atendimento ao público se oferece quando um segurado entra com um pedido de recurso porque o seu requerimento de aposentadoria por tempo de contribuição foi indeferido por terem sido apurados apenas 11 anos de contribuição e ele quer comprovar que tem 42; ou quando o aposentado por invalidez pede uma revisão porque pretende transformar uma esquizofrenia paranoide em uma dor lombar. Em ambos os casos basta apenas dar um suplemento extra de papel para que eles esclareçam e orientem o analista de como se darão tais milagres. Isso resultará no mínimo em uma hora de liberdade, tempo suficiente para fazer uma pipoca de microondas, tomar café, ir ao banheiro, dar uma espiada no celular e puxar um ronco.
                                  Outro método bastante eficiente, embora não muito recomendável, é chegar ao trabalho etilicamente calibrado ou farmaceuticamente amparado, conforme esteja em sua fase maníaca ou depressiva. No primeiro caso, você tornar-se-á efusivo e bem humorado, falará de sua vida mais do que ouvirá as queixas dos segurados, não resolverá nenhum problema apresentado, mas se divertirá bastante. Isso poderá resultar em algumas referências na ouvidoria, mas terá valido a pena. Já no segundo caso, igualmente agradável, você se manterá virtualmente distante de qualquer possível ataque oral perpetrado por um segurado exaltado. As palavras circundarão sua cabeça sem penetrar no seu cérebro, que estará confuso e arredio, portanto inalcançável. Você tentará fixar o olhar na pessoa a sua frente, mas seus olhos não conseguirão se manter abertos por muito tempo sem dar demoradas piscadas. Esse seu comportamento também poderá resultar em algumas reclamações na ouvidoria, mas você se manteve tranquilo e sem aborrecimentos, e isso é o que é importante.
                          Entretanto, se você quiser radicalizar a sua atitude e partir para o embate, verbal e físico, com o seu oponente, falar aquelas verdades contrárias à vontade do ouvinte, dizer que 11 anos nunca se transformarão em 42 e que esquizofrenia não se torna dor lombar em hipótese nenhuma, levar uns tabefes e, ato contínuo, retribuí-los com igual vigor, então, colega, você terá alcançado o ápice de sua carreira de servidor público. Receberá como passaporte para a liberdade um CID F e, a partir de então, nada mais de trabalho, nem presencial nem à distância.

sábado, 26 de maio de 2018

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